“Eu sou você amanhã”. O efeito “orloff” do Museu do Amanhã.

(Letícia Giannella)

Um dos ícones do projeto Porto Maravilha é o Museu do Amanhã, que está sendo construído no Píer Mauá e estampa todas as imagens que procuram vender a cidade do Rio de Janeiro em tempos de megaeventos. Trata-se de um dos empreendimentos-âncora do projeto que possui a função de alavancar a atração de investimentos através da construção de uma imagem de cidade global, única, diferencial e moderna (veja a imagem abaixo). A associação do nome de um arquiteto-estrela – o espanhol Santiago Calatrava – à cidade do Rio de Janeiro vem a calhar para os interesses daqueles que intencionam inserir a cidade no mercado das cidades globais, uma vez que o arquiteto acaba constituindo-se como uma marca, uma grife ou um selo que identifica as cidades que recebem as suas obras como cidades exclusivas.

museu do amanhã

Como se não bastasse o altíssimo custo do projeto (orçado em 215 milhões de reais em 2011) e a obscuridade que ronda o seu orçamento atual – já que ele é mais um elemento que foi para o buraco negro da Concessionária Porto Novo –  o que pouca gente sabe é que boa parte das obras de Santiago Calatrava, situadas principalmente na Europa, cedo ou tarde acabam sendo objeto de processos judiciais devido a fatores tais como a multiplicação dos custos ao longo das obras em relação aos custos previstos inicialmente, aos exorbitantes custos de manutenção das estruturas e até mesmo por erros estruturais que, em alguns casos, chegaram a provocar danos físicos em cidadãos. Ou seja, a preocupação deve ir além do temor que se repita o desastre da Cidade da Música, que teve seu orçamento quintuplicado no decorrer das obras. A questão é séria, pois em troca de uma imagem a prefeitura do Rio de Janeiro assume o risco – de longo prazo – de ter que arcar com imensos custos imprevistos / imprevisíveis. E o leitor seguramente sabe que essa história de que não há investimento público na Operação Urbana Consorciada do Porto do Rio não passa de um discurso muito bem construído que oculta o aporte de recursos públicos na engenharia financeira do Porto Maravilha.

Ademais, procure saber sobre os valores dos ingressos cobrados para a visitação, por exemplo, da obra que é o maior símbolo de Calatrava, a Cidade das Artes e das Ciências, situada em Valencia, Espanha, cidade que é também uma das mais afetadas pela crise financeira que atingiu o continente europeu nos últimos anos, através de uma especulação imobiliária violenta. Será coincidência?

O mote para este post foi a reportagem publicada em agosto pelo El País que aborda um dos processos sofridos pelo autor. Vale a leitura!

 

Calatrava será julgado no dia 13 de novembro por sua ponte de Veneza[1]

As obras-mestras da arquitetura buscam deixar um legado eterno, uma mostra do talento do artista para as gerações vindouras. Porém, para os italianos do futuro, a ponte da Constituição inaugurada por Santiago Calatrava em 2008 deixa um “dano duradouro”. Assim assegurou o Tribunal de Contas de Véneto – a região de Veneza – na citação com a qual pedia em março ao arquiteto espanhol 3,886 milhões de euros (aproximadamente 12 milhões de reais). Depois de duas tentativas fracassadas, o documento acaba de chegar às mãos de Calatrava, segundo o jornal La Nuova Venezia. Assim, o júri pôde ser agendado para o dia 13 de novembro e Calatrava nomeou como advogados de defesa dois italianos: Marco D’Alberti e Pierluigi Piselli.

“A realização da quarta ponte sobre o Canal Grande desconsiderou o aumento dos custos em relação ao previsto, e levará no futuro a um gasto constante e desproporcional por parte do governo, já que a obra sofre de uma patologia crônica, caracterizada pela necessidade de um monitoramento constante e do recurso contínuo a intervenções extra-ordinárias”, afirma em seu texto o procurador do Tribunal de Contas do Véneto, Carmine Scarano.

Por este motivo, por um orçamento que disparou até superar os 11 milhões de euros, pelos atrasos em relação à inauguração prevista para 2004 e por “erros macroscópicos no projeto”, Scarano sustenta que o arquiteto e os outros três responsáveis pela obra (os ex-diretores de trabalhos públicos Roberto Scibilia, Salvatore Vento e Roberto Casarin) devem devolver às contas do governo italiano 3,8 milhões de euros. Concretamente, o procurador quantifica em 2,264 milhões de euros (7 milhões de euros) os danos pelo aumento dos custos devido “a erros ou omissões”.

Para a sua citação, Scarano se apoia em duas perícias realizadas pela procuradoria da República Italiana e pelo Tribunal Civil, uma relação da Agência de Vigilância sobre Prêmios Públicos, uma relação encomendada pela Procuradoria Contábil e outra da Prefeitura de Veneza.

Pouco antes da inauguração da obra, em 2008, Calatrava defendeu a estrutura e recordou o seu currículo de “arquiteto e engenheiro” com “mais de quarenta pontes construídas”, “doze estações de trens” e “noventa por cento” de seu trabalho dedicado à obras públicas durante “vinte e sete anos de profissão”. O arquiteto também se esquivou de muitas das críticas ao assegurar que, “após a entrega do projeto” ele se converteu em “um simples assessor artístico”.

Seja como for, os atrasos e os excessos em relação ao orçamento inicial tem caracterizado várias das obras de Santiago Calatrava. Para citar alguns dos exemplos mais recentes, o Palácio das Artes de Valencia acabou superando amplamente os 100 milhões de euros (aproximadamente 300 milhões de reais) previstos a princípio e alcançou um custo final de 478 milhões de euros (aproximadamente 1,5 bilhões de reais). Vários especialistas advertiram em janeiro, a sete anos da inauguração da obra, de que a deterioração do material resultaria no desprendimento do trencadís que recobre a fachada se não se remediasse. No último 7 de junho, Calatrava foi condenado a pagar 3.272.659,46 euros aos gestores do Palácio de Exposições e Congressos de Oviedo, pelas falhas do edifício. E uns meses antes, em abril, Bodegas Domenecq, titular da adega Ysios, idealizada pelo arquiteto ao norte de Laguardia, em Álava, processou Calatrava pedindo-lhe dois milhões de euros pelos problemas de estrutura.


[1] Publicado originalmente no periódico El País, em 22/08/13. Disponível em: http://cultura.elpais.com/cultura/2013/08/22/actualidad/1377162543_947865.html#bloque_comentarios

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