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A luta concreta do romance

Por Isabel Cristina da Costa Cardoso*
A visita guiada ao Morro da Providência e às áreas da Gamboa, da Saúde e do Morro da Conceição, promovida no dia 27 de setembro de 2012 pelo Colóquio Internacional Renovação Urbana, Mercantilização da Cidade e Desigualdades Socioespaciais, cumpriu sua função acadêmica e política. Durante a visita guiada, a jornalista Amélia Gonzales, da folha “razão social”, do jornal O Globo, produziu a matéria “Um passarinho à frente, por favor! A coluna de hoje no amanhã”, que possibilita publicizar o que os moradores já estão, há dois anos, denunciando: que o projeto Morar Carioca tem alto impacto de remoção, não reconhece o direito à segurança da posse dos moradores, não dialogou com a população sobre os objetivos, os tipos e as escalas de intervenção do projeto urbano, além de não considerar os moradores da favela como o verdadeiro legado social  de grandes eventos, como a Copa e as Olimpíadas, a ser preservado.
A comissão organizadora do Colóquio construiu coletivamente os roteiros de visitação com moradores do Morro da Providência, com a Associação Recreativa Afoxé Filhos de Gandhi, através de seu presidente e morador da região, Carlos Machado, e com o Instituto Pretos Novos, através das professoras Claudia Marques e Pâmela, responsáveis pelo projeto “O desdobrar das histórias”. A partir do olhar de quem mora na região e é responsável pela produção e reprodução da memória e da história social do lugar, a visita guiada pretendeu propiciar uma observação crítica sobre os impactos que grandes projetos de desenvolvimento construídos de “cima para baixo” e com recursos públicos vultuosos, como o Morar Carioca da Providência e o Projeto Porto Maravilha, desencadeiam sobre a população local e principalmente sobre as famílias trabalhadoras pobres urbanas da região.  Assim, foi possível constatar, além da concepção remocionista do Programa Morar Carioca no Morro da Providência, a ausência de planejamento e adequação dos impactos de vizinhança e ambientais causados à vida da população da Providência pelas obras urbanas.
Por último, a riqueza da história social da região portuária foi apresentada a partir da memória social de quem vive e trabalha na região, há décadas. Começamos a visita da parte baixa da região portuária, na Saúde,  a partir do recém criado espaço de exposições “Meu Porto Maravilha”. A partir desse ponto midiático que pretende transformar a cultura em um espetáculo interativo e um bem a ser consumido, a visita guiada foi desconstruindo as diversas temporalidades da história oficial do poder para revelar, “a contrapelo”, a história dos dominados que remonta ao Brasil Colônia e ao trabalho escravo; às políticas urbanas segregadoras e higienistas, desde a transição do século XIX ao século XX, como as que se expressaram no “bota abaixo” às habitações populares coletivas e aos morros da cidade; à formação do Morro da Favela, hoje Morro da Providência; aos grandes projetos urbanos de transformação da antiga cidade colonial e sua adaptação ao desenvolvimento capitalista e seu ideal de civilização; à história social do trabalho e da centralidade  dos escravos e ex-escravos e dos portuários para a história da região e da nação; e à diversidade da formação étnico-cultural e social da classe trabalhadora e de suas expressões culturais como, por exemplo, o samba e o carnaval, a partir da coexistência de diferentes núcleos de afrodescendendes, de migrantes e de imigrantes estabelecidos na região portuária e nos bairros do seu entorno.
O conjunto destes aspectos observados e narrados contribuiu para a compreensão de que  projetos e intervenções públicas e privadas que pretendem “revitalizar” a região, como se não houvesse vida e memória social a animar o território, e prescindem da participação efetiva da população, são geradores de antigas e novas desigualdades socioespaciais e conflitos urbanos significativos. Da mesma forma, a proposta de organização de uma visita guiada como parte da programação do Colóquio Internacional e a forma como a mesma foi planejada, reiteram o papel da universidade, e em particular da profissão do Serviço Social, com o fortalecimento da cidadania e a formação de um processo social e político emancipatório.
*Membro da comissão organizadora do Colóquio Internacional Renovação Urbana, Mercantilização da Cidade e Desigualdades Socioespaciais
Professora da Faculdade de Serviço Social e Coordenadora do Projeto de Extensão “Direito à Cidade, Política Urbana e Serviço Social”
Integrante do Fórum Comunitário do Porto
Fotos no Flickr:
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Um passinho à frente, por favor! A coluna de hoje no Amanhã
AMELIA GONZALEZ04.09.2012 09h00m

Eram 9h e a estação Central do Brasil já estava sem a multidão que cedo lota as gares e o saguão. Assim, foi fácil encontrar o pequeno grupo no local onde havíamos combinado. Acadêmicos e pesquisadores, 21 pessoas no total, esperam os dois moradores do Providência para começarmos um tour pelo Morro. A iniciativa é do Núcleo Favela e Cidadania da UFRJ, que este ano trouxe como tema do Colóquio Internacional de Favelas a questão das remoções urbanas. A construção da nova zona portuária, projeto do Morar Carioca, tem previsão de remover cerca de 800 casas do Providência.

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