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“O importante da vida não é ser gente importante; só importante. O importante mesmo é ser gente.” Rosinaldo Mendonça

Repetidos cento e sessenta e nove vezes pela caixa, estes dois compassos em ostinato dão ao Bolero de Ravel o ritmo uniforme e invariável. Fonte: Wikipédia

Repetição, ritmo uniforme e invariável aproximam o Bolero de Maurice Ravel ao padrão de intimidação da Prefeitura do Rio de Janeiro. Despejo voltou mesmo a ser um clássico. Ontem, 14/03, a ESPN apresentou o drama urbano de Ravel Mendonça, 17 anos, jogador de vôlei de praia considerado esperança olímpica. Convocado para treinar em Saquarema, no Centro de Desenvolvimento de Voleibol (CDV), Ravel integra a seleção brasileira sub-19 que se prepara para o próximo Mundial da categoria.

O jogador só não esperava ter sua família despejada e sua casa demolida enquanto treinava.

No Largo do Tanque, em Jacarepaguá, na Zona Oeste carioca, os pais de Ravel com seus dois irmãos – um com seis anos e outro de 18 e com necessidades especiais – e toda a vizinhança moradora de um terreno que a Prefeitura toma como seu, por onde vai passar a Transcarioca, foram desapropriados, intimidados e forçados a negociarem valores irrisórios em indenizações, já que as famílias foram consideradas invasoras. Rosinaldo Mendonça, pai de Ravel, comprou há 7 anos o terreno em que morava: “Falaram, olha, isso aqui é da Prefeitura, vocês não podem permanecer aqui e acabou. Isso aqui não é nada de vocês. Tem que sair e acabou”.

Ravel contou a perplexidade de não reconhecer a própria casa: “Eu não reconheci nada, eu não sabia onde eu tava, a minha casa os meus pais já… já tava tudo pronto pra eles saírem”. Resistindo ao despejo forçado, a família permaneceu por mais de um mês rodeada pelos escombros das outras casas, ruídos, doenças respiratórias por conta da poeira das demolições etc. A pressão foi tanta que Rosilene, mãe de Ravel, resolveu negociar finalmente com a Prefeitura, que ofereceu R$ 40 mil em indenização, insuficientes, no entanto, para realocar sua família. “Eu me preocupei da minha mulher chegar a ter um treco”, disse Rosinaldo.

Somou-se ao drama de perderem a casa, o “deboche e o desrespeito” dos profissionais envolvidos no processo de remoção. Sobre o assessor da Prefeitura encarregado pelas negociações (intimidações é mais correto) com os moradores, Rosinaldo reproduziu uma fala que caracteriza muito bem o que se ouve da boca dos afetados por despejos forçados aonde quer que eles estejam: “Ele falou, olha, agora é pegar ou largar, não tem como. Botar os pertences de vocês na rua, vocês também na rua, e a máquina vem e demole. A Prefeitura não tá nada preocupada se vocês vão ou não vão sair daqui”. O assessor não quis falar com a equipe na ESPN.

“A própria Olimpíada tá dificultando minha vida, minha família”, disse Ravel, que terminou a reportagem chorando e pedindo ajuda para sua família, que foi morar em Rio das Pedras.

A reportagem de Thales Machado é mais rica, por isso vejam o vídeo abaixo. Mas tenham cuidado, pois, apesar da repetição invariável e uniforme da experiência que acumulamos ao longo da resistência aos despejos e remoções, emociona.

Fórum Comunitário do Porto

R$ 3 bilhões para obras de transporte na cidade

Nesta semana, a ADEMI (Associação de Dirigentes de Empresas do Mercado Imobiliário) publicou um informe sobre a visita das obras de infraestrutura do projeto Transcarioca em Madureira.

Nos próximos anos um valor de R$ 3 bilhões vai ser investido na implantação dos projetos de infraestrutura, planejados para facilitar a estadia dos turistas durante os jogos Olímpicos.

A Prefeitura vai gastar R$171 milhões para a Transbrasil, a qual vai ligar Deodoro ao Aeroporto Santos Dumont, passando pelas avenidas Francisco Bicalho e Presidente Vargas, provavelmente vindo a impactar a área portuária. R$ 1,1 bilião virão do PAC da Mobilidade Urbana. Outros projetos  são a implantação da Transoeste (que vai ligar a Barra a Santa Cruz), e a Transolímpica que ligará a Barra a Deodoro e ainda está em fase de licitação.

Os visitantes oficiais adularam mais uma vez os grandes eventos programados para o Rio. Alegaram a melhoria da qualidade de vida para “a população carioca” em consequência do legado urbano “para a cidade e seus habitantes”.

Será que vai ser mesmo o “povo brasileiro”, que aproveitará destes projetos? As demandas dos turistas visitantes dos eventos desportivos serão as mesmas da população trabalhadora? Não é nova a fala da presidente sobre “a oportunidade que o povo brasileiro terá de mostrar o País ao mundo”. Realmente, as oportunidades parecem promissoras para aqueles que tem a concessão de implementar o projetos: as construtoras. Não cabendo nesta imagem toda, as acusações de despejos ilegais causando uma piora nas condições de vida da população afetada pelas obras, obviamente ficaram fora da discussão.


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