EMBRANQUECIMENTO E GENTRIFICAÇÃO NA PEQUENA ÁFRICA

No domingo do Dia das Mães (11/05) participei de mais uma edição do Fim de Semana do Livro no Porto (FIM), que juntou diversas atividades no Largo de São Francisco da Prainha, na Pedra do Sal e no Morro da Conceição, área da maior importância para as tradições e culturas negras no Rio de Janeiro. Valeu muito a pena pela companhia, para encontrar amigos, para ouvir Marcelino Freire (que conhecia apenas por textos) e para assistir à sua apresentação e de Fabiana Cozza ao final na Pedra do Sal. Mas também me entristeci com algumas coisas.

O FIM conta com amplo patrocínio oficial, inclusive da Concessionária Porto Novo, e dos governos estadual e municipal. Vi tudo muito organizadinho, jovens trabalhando com camisetas do evento; mas, até a noite, muito pouca presença de moradores (que são em sua maioria negros) das favelas próximas ou mais distantes. O público que predominava na maior parte do tempo era aquela classe média branca progressista, que gosta da cultura negra e de ambientes como Santa Teresa ou Morro da Conceição. Nada contra a participação de tal público, muitos de meus amigos são desse grupo sócio-cultural; mas num evento gratuito com amplo financiamento público, era de se esperar um esforço em buscar a participação de um público mais negro, mais pobre e periférico. Ainda mais que, embora não citando explicitamente a questão negra, uma das convocatórias do evento alude a “assuntos de suma importância, como carnaval, futebol, malandragem, comida, botequim, macumba, violência, capoeira, jogo do bicho, festa e o que der na corriola”, e que um dos objetivos era reunir “pessoas [que] misturam Zé Pelintra, Lima Barreto e Pixinguinha na busca por entender uma cidade com o mesmo ziriguidum que um bebum faz um traçado para desanuviar a vida”. Palavras recheadas de coisas e gentes negras.

A “brancura” da presença estava ainda mais evidente na mesa de conversa que assisti, com Marcelino Freire (figuraça) e outras duas pessoas, todas brancas, sobre poesia, território, incertezas, etc. Assim como na mesa anterior, com Luiz Antônio Simas e Marcos Alvito, abundavam as referências a orixás, terreiros, favela, samba e outras coisas negras. Entretanto, no público só haviam três pessoas negras: uma estava comigo; outra era um rapaz de dreadlocks que, sozinho, seguia os debates ao fundo da sala com uma expressão que me pareceu desconfiada; e a terceira, sintomaticamente, o rapaz da organização do evento que servia água, cerveja e quitutes aos participantes da mesa.

De maneira semelhante, nas barracas da “feira” montada no largo, embora as temáticas negras fossem amplamente presentes, não conseguimos encontrar facilmente obra de qualquer autor/a negro/a. Aos negros, mais uma vez, parecia estar reservado o lugar do exótico, como na barraca de acarajés. O bar que fica numa esquina do largo, a caminho da Pedra do Sal, eu conheço bem porque o frequentava muito na época em que existiu a Ocupação Zumbi dos Palmares, ali perto, entre 2005 e 2011, que eu apoiava de forma bem próxima (aliás, o prédio – que é público, do INSS – onde ficava a ocupação está lá, vazio, inutilizado. Parece que a única coisa que queriam mesmo era esvaziá-los de seus moradores, pobres e esmagadoramente negros). Pois bem, esse bar era um autêntico “pé-sujo” há poucos anos atrás, com as típicas mesas e cadeiras montáveis de aço, e sua freguesia era maioritariamente o povo pobre do Morro da Conceição, e de cortiços e ocupações das proximidades. Agora, tem toda a pinta de barzinho de Santa Teresa, com móveis de madeira e uma decoração típica. E o público também era bem diferente.

Fiquei pensando que talvez isso era devido ao evento, mas logo compreendi que não, ao caminharmos pelo Morro da Conceição. Também frequentava regularmente o morro até uns quatro anos atrás, aproximadamente; e fiquei impressionado com tantas mudanças em tão pouco tempo. Além das obras nas vias (muito bem vindas), vi que muitas casas sofreram amplas reformas, indicando um aumento brusco da renda dos moradores. E, em vários imóveis, funcionam agora bares chiques (mas “descolados”, claro) e ateliers, invariavelmente de artistas e artesãos vindos de fora (e, com toda certeza, brancos). Entramos num deles, de uma moça (branca) que vende roupas (caras) com temática “afro-indígena”, “nossas origens, não é?”, explicou-nos candidamente.

Já havia ouvido falar de gentrificação (elitização com mudança de perfil populacional) do Morro da Conceição, mas me surpreendi com sua velocidade. Aliás, cabe notar que boa parte dos imóveis do morro pertencem à Igreja Católica (Ordem Terceira), e há poucos anos havia um conflito permanente e sério entre inquilinos, ocupantes e os padres que moviam ações de despejo e aumentavam consideravelmente os aluguéis. No domingo, um amigo contou que até o tráfico está envolvido na expulsão de moradores antigos para abrir espaço para novos moradores de classe média. O fato é que parece que os moradores antigos estão agora em minoria na comunidade; com certeza seu número está diminuindo, e não circulam à vontade em meio à nova fauna branca e relativamente privilegiada que domina amplos espaços do território.

Isso não terá mais jeito? Bem, em relação às atividades e ao ambiente cultural, creio que algumas medidas seriam muito fáceis de ser adotadas. Um pequeno exemplo: na mesa que assistimos, cabia perfeitamente, pelo tema, a presença de um/a rapper. Qualquer rapper ou MC do funk que eu conheço aqui no Rio daria no debate uma contribuição muito mais interessante que a do acadêmico/poeta que lá estava; do qual nunca havia ouvido falar, e que não me despertou nenhuma curiosidade para saber quem é. E a presença de rappers e MCs teria outra consequência salutar: atrairia um outro tipo de público, mais jovem, menos branco e mais proletário. Que existe um público desse tipo em potencial para atividades naquele local, ficou claro, porque foram pessoas com esse perfil que apareceram em maior quantidade mais para a noite, para assistir à apresentação final na Pedra do Sal.

Mais do que isso, com tanto apoio institucional, seria fácil programar parte das atividades para o Morro da Providência, por exemplo, que é bem próximo. E distribuir convites e vale-transporte em escolas públicas, também. Enfim, possibilidades não faltam, só precisa de vontade. Afinal, se é sério o objetivo proclamado de fazer renascer a “Pequena África” na zona portuária, é muito absurdo que tal “renascimento” da cultura negra (que nunca morreu, que eu saiba, apesar de tantas tentativas de assassinato), se faça de modo a afastar os autores, artistas e o público negros.

Mas tenho dúvidas se a vontade para tais medidas e iniciativas existe entre as pessoas que organizam tais atividades, com grande participação governamental ou da Porto Novo. Esse objetivo de “renascimento da Pequena África” surgiu meio por acaso quando desenterraram o Cais do Valongo em 2011. É preciso lembrar que foi uma descoberta ACIDENTAL: se não fosse por obras de DRENAGEM (ponto para nós engenheiros!), incluídas nos projetos do “Porto Maravilha”, o cais permaneceria enterrado por muitas décadas, provavelmente, uma vez que não existe um amplo programa de prospecção arqueológica dos sítios relacionados à história da escravidão e dos afrodescendentes (outro sítio, o Cemitério dos Pretos Novos, também foi descoberto por acidente, em 1996). Na escavação do cais, o papel dos negros, além do trabalho pesado de sempre, era de “auxiliar” os especialistas acadêmicos. Aconteceu inclusive o pitoresco caso da ialorixá que foi chamada para identificar e PEGAR uma imagem de Bara (Exu), porque a pesquisadora católica tinha medo de ser “coisa ruim” (http://extra.globo.com/noticias/rio/pequena-africa-renasce-no-cais-do-porto-do-rio-4763936.html). Esse causo bizarro talvez fale mais sobre a apropriação “branca” da  tradição afrodescendente, que muitas teses acadêmicas

Mais o complicado mesmo é a gentrificação da região e o embranquecimento de seus moradores. Qual é a atitude da classe média filo-africana diante dessa questão concreta, palpável, não redutível a declarações de amor à negritude? Uma moradora recente do Morro da Conceição, branca e declaradamente poeta, fez uma intervenção na mesa em que estava o Marcelino Freire, muito reveladora. Com uma dose inicial de culpa, falando de pertencimentos, disse que tinha medo de ser vista como alguém que “tinha tirado o lugar de outra pessoa” (e trata-se exatamente disso), mas que, num dia em que uma moradora antiga (descrita pela poetisa em termos nadas poéticos – “uma senhora gorda e desdentada”) a chamou de “preta”, sentiu-se muito feliz e finalmente “aceita” na comunidade!

Uma dica para essa senhora (magra e com os dentes – verdadeiros ou não – no lugar), que vale para muitos brancos em busca de “perdão”: não tomem as atitudes de malícia e boa vizinhança dessas pessoas como confiança e aceitação – elas podem ser “desdentadas”, mas não são nem um pouco estúpidas. Querem mesmo um reconhecimento sincero? Ajudem a organização e a luta dos moradores tradicionais e pobres da área portuária, para permanecerem em seus territórios em condições mais dignas de vida. Parem de contribuir com a gentrificação da área portuária, buscando um ilusório “enegrecimento” ao se mudarem para o Morro da Conceição e se dedicarem à “cultura negra” (feita por brancos?). Ajudem a luta contra as remoções forçadas (levadas a cabo pela mesma prefeitura que financia eventos como o de domingo), e contra o encarecimento da moradia que existe na Providência, Morro do Pinto e várias ocupações e cortiços da região. Pratiquem ações reais de reparação, ajudem os negros a preservarem sua cultura eles próprios, sem “intermediários” ou “representantes”. Deixem a/os própria/os negra/os falarem de si mesmos. Não basta ser “progressista”. É preciso ser revolucionário/a.

Maurício Campos

Maio de 2014

 

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